CRÔNICA - Entidades da floresta

Foto: Aquivo JV

Certa noite, entre rodadas de rapé, contou-me um originário do povo Marubo algumas histórias intrigantes que lhe acontecera na aldeia onde cresceu.
Quando Panã - este é seu nome – ainda era jovem saíra para caçar uma anta com seu parente da aldeia, caminharam de maneira a evitar qualquer barulho. A certa altura Panã percebe que já havia passado por aquele lugar. E diz ao seu comparsa mais velho e com mais experiência no mato:


- Tenho a impressão que já passamos por aqui.

- Sim, está é a terceira vez que passamos por aqui – estavam perdidos.

Caminharam por quase duas horas pela floresta e foi dito ao pequeno jovem Panã que isso não é comum, visto que o animal é lento.

- Vamos parar por aqui.  Disse o Marubo com mais experiência.

Por ali se encostaram, passaram um rapé e o mais velho, com seu facão, cortou um pedaço de cipó que se enrolara no alto pé de Maçaranduba. Árvore típica da região, que possui frutos, látex e madeira resistente.

Naquele instante o silêncio ocupava o ambiente onde os marubos encontravam-se recostados. Panã observara com muita atenção o trançado que seu companheiro de caça fazia com o cipó. Criou-se, então, um círculo onde ao final as pontas se transpassaram e foram escondidas por entre os trançados, de modo a dificultar saber onde era o começo ou o fim do daquele círculo.

Terminado o trabalho o parente deixa o cipó trançado pendurado em um galho próximo. E diz a Panã:

- Vamos! Agora encontraremos o caminho para voltar pra casa. O espírito protetor da anta não quer que a encontremos hoje e ainda nos fez se perder. Vamos embora, desta vez encontraremos o caminho para aldeia.

E assim partiram em caminhada e facilmente encontraram o caminho de volta.
Panã intrigado com o cipó trançado pergunta ao parente:

- Parente, o que você fez com aquele cipó? Foi por causa dele que encontramos o caminho de volta, não foi?

- O espírito protetor da anta nos fez se perder no caminho, fiz o trançado para o distrair, assim ele vai ficar procurando a ponta do cipó para entender como desfazer os nós. Enquanto isso ganhamos tempo para voltar.

Panã, hoje já mais velho, disse ter ficado impressionado com aquilo. E que tal proeza lhe salvara em outros momentos.
Era tarde da noite, passamos mais uma rodada de rapé Mayoruna, verde e forte. O céu permanecia grandiosamente tropical: rico em estrelas. E a lua começara a descer do alto do céu. E meu amigo Panã continuou a contar os curiosos fatos que nossa racionalidade pálida não explica.

Em uma outra caça Panã saíra pela manhã, desta vez queria pegar uma queixada, também nesta caçada o acompanhava um parente, o local da queixada era próximo ao terreiro da aldeia. Subiram em uma árvore acima de um kanaman, um lamaçal rico em nutrientes e muitos bichos passam por ali para se alimentar, principalmente a queixada.

Quando já estavam em cima da árvore, na espera da queixada, inicia uma chuva forte e torrencial, que permanece o tempo de lhes causar calafrios, incômodos no corpo e a vontade de abandonar o posto. Resolvem então ir embora. Entretanto, ao entrarem na trilha de volta e observam a mesma completamente seca, nem mesmo uma gota de orvalho umedecia qualquer folha. Chegaram no terreiro da aldeia, nem uma gota de água caíra ali. Eles se entreolham e em silêncio se fazem entender o castigo que levaram.

Dos fatos curiosos contados a mim naquela noite o que mais intrigou e me arrepiou os fios do corpo foi o da criança desaparecida.

Na aldeia onde vivia Panã, ocorreu um fato que ainda hoje intrigam a todos da aldeia.

A mãe e sua criança de três anos caminhavam para um igarapé por uma trilha na mata, a certa altura a mãe observa algumas ervas nutritivas e vai catá-las, após segundos de atenção às plantas a mãe sente falta de sua criança. Olha ao seu redor, procura no entorno e não encontra, retorna então um pouco o caminho da trilha e continua a chamar pela criança. A mesma não responde, corre então a mãe até o fim da trilha que aponta para a beira do igarapé e nada da criança.

Corre a mãe para aldeia, desesperada, os parentes escutam seu desespero e partem à procura da criança. Os parentes levantam a possibilidade de a criança ter sido comida por algum bicho. Entretanto, esta logo é descartada pois as pegadas da criança somem, em uma distância ainda próxima da trilha e não encontram nenhuma outra pegada ou rastro de bicho por ali. Os dias passam e parentes de outras aldeias são chamados para ajudar na busca.

Procuram por todo raio onde a criança passara com a mãe. Uma criança pequena não iria muito longe. Os dias passam a procura se intensifica, mas nem sinal da criança, nem sinal de pegada de bicho, nem gemido, nem choro.  Alguns se perguntam se um isolado pegou a criança...  Mas nenhuma resposta.

E assim passaram-se três luas minguantes, a família já iniciara o luto da perda quando certa manhã, a mãe da criança caminhava pela mesma trilha, ao chegar perto onde o fatídico fato acontecera ela encontra sua criança, sentadinha em uma pedra. Ela se espanta, pega a criança, revira seu corpo, olha suas partes para ver se nada ruim acontecera em seu corpinho. E diz:

- Onde você estava meu filho? O que aconteceu? O que lhe fizeram?
 A criança responde:

- Eu estava com a tia mãe.

- Que tia? O que esta tia fez com você?

- Ela brincava comigo. A tia era legal. Mas eu quero você. Eu disse pra tia que queria você.

Todos ficaram abismados com o ocorrido. A maioria acredita que tenha sido uma entidade da floresta.
Fui dormir imaginando o corpo magrelo e os longos cabelos brancos de uma velha senhora da mata.


Por Stélia Castro

Stélia Castro é geógrafa, mestre em patrimônio cultural, contadora de histórias e atualmente vive no Vale do Javari, sua fonte de inspiração.

Comentários

  1. Impressionante e ricas as histórias do povo Marubu, uma ótima escrita dá um tom de mistério a crônica e nos envolve bastante. Grato por compartilhar suas vivências!! Grande abraço, daqui do Acre. :)

    ResponderExcluir

Postar um comentário