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| Foto de Arquivo |
Soube que Maiah e sua família
estavam em Tabatinga, cidade do Amazonas próximo de Atalaia do Norte, onde
vivo. Ela e sua família estavam hospedadas na Casa de Apoio à Saúde Indígena.
Um local onde os "parentes" ficam para cuidar da saúde, sobre a
tutela do Estado.
Maiah é matriarca do povo korubo.
Etnia de recente contato que se divide em grupos menores distribuídos no Vale
do Javari, Terra Indígena localizada no município de Atalaia do Norte. Suas
características marcantes são o nomadismo e as cacetadas que oferecem como
ataque àqueles que os aborrecem, incluindo quando necessitam defender seu
território e suas vidas.
Nesta selva vale tudo pela
sobrevivência, não nos cabe julgar.
A primeira vez que ouvi a
história de Maiah, soube que os próprios korubos mataram seu marido - o então
cacique daquele grupo. Acuada, ela foge com seus filhos, genros e outros
chegados a ela. E assim consolida-se um
novo grupo, do qual torna-se referência.
Até então eu nunca ouvira sobre lideranças
indígenas mulheres aqui no Vale do Javari. Aliás, sobre as mulheres indígenas daqui
ouvi muitas histórias tristes, de partir a alma ao meio. Entretanto, tenho
certeza que estas mulheres referências existem, sempre existem.
Meu interlocutor, criador de
toadas de Parintins - o Antônio - me contou que o marido de Maiah pedira a
outros quatro Korubos para observarem uns madeireiros que por ali estavam e, se
possível pegarem suas armas e utensílios. Assim foram fazer, entretanto, o
plano deu errado e os madeireiros mataram dois dos korubos e os enterraram de
cabeça para baixo na beira rio. "Enquanto
os korubos matam três brancos, estes últimos matam trinta korubos". É uma
luta desigual. Korubo luta com borduna - um tipo de cassetete. Madeireiro usa
arma de fogo. E devo lembrar que o território é demarcado.
Os korubos sobreviventes voltaram
muito nervosos para comunidade e lá mataram seu próprio cacique, como um ato de
ira e discordância ao mando.
Hoje, no grupo de Maiah, há outro
cacique o qual decide sobre as formas de contato com o branco, mas Maiah é a
eterna matriarca, respeitada por todos.
Quando cheguei na Casa de Saúde, o
guarda do local me acompanhou até a "maloca" onde estavam hospedados. Lá estava Maiah, sentadinha em uma rede. Sua
filha e um bebê recém-nascido estavam em outra rede, três crianças maiores preenchiam
o restante do espaço vazio. No canto da parede, sentado em um banco, estava o
genro da matriarca, um jovem de vinte e poucos anos.
O rapaz estava visivelmente
bravo, com uma postura altiva, mãos apoiadas nas coxas. Ele mantinha o olhar
fixo no vazio, em qualquer lugar a altura de seus olhos e gritava em sua língua
de maneira descontrolada. A cabeça estava vermelha, mostrando seu nervosismo.
Nas panturrilhas estavam amarradas pulseiras largas tecidas em palha de tucum.
O guarda perguntou se alguém
tinha artesanato. A filha de Maiah respondeu que não, contou que a mãe fora a
cidade e vendeu tudo.
O genro permanecia gritando.
Falamos com ele, mas ele ignorou.
Confesso que achei que era um
doido, alguém meio transtornado mesmo. Depois soube que esta é a maneira que os
korubos ficam quando estão chateados com alguma coisa. Esbravejam sem parar ao
vento. Daí é melhor não ficar por perto, mas entendi isso só depois...
Ao ver esta cena, me assustei com
os gritos ininterruptos do genro dei meia volta... E o coração quase se partindo por não poder
conhecê-la...
Foi quando ao passar ao lado da
rede de Maiah, senti uma mãozinha me pegar o braço e me puxar, deixando-me próximo
de seu rosto, ela olhou nos meus olhos e perguntou "nome".
Tenho certeza que meus olhos brilharam
arregalados de alegria por estar tão próximos dela e um sorriso largo invadiu
minha cara pálida.
Eu disse "Stélia. E seu
nome?".
"Maa-iah" respondeu
ela, ao desenhar lentamente os fonemas com seus lábios. Ela olhava no fundo dos
meus olhos. E vi uma lua negra em cada uma de suas pupilas brilhantes.
Seus olhos eram grandes, porém
semicerrados, e cavavam com profundidade sua face redonda. O corte de cabelo
esculpia uma tigela de tacacá de cabeça para baixo. O maxilar avantajado
acolhia um sorriso largo em finos lábios, e assim, descortinavam-se pequeninos
dentes amarelos e quebrados.
Seus ombros largos e a postura de
quem nunca fecha o peito apresentava a força de seu corpo. Não haviam rugas na
pele envelhecida, mas finos caminhos próximos aos olhos, entregando seus
antigos sorrisos.
Eu ficaria sentada ali diante
dela e aos pés da rede por horas.
Sua fala era pausada e baixinha.
Ela me mostrou suas duas
pulseiras de tucum. Mostrou a palha pendurada no alto de janela e explicou que
preparava a linha enrolando a palha na coxa.
Ela apontava e fazia gestos com
as mãos para me explicar.
Então chegou uma pequena criança
e sentou ao seu lado.
Ela me mostrou a criança e disse "Nuu-bá-bá".
E ao mostrar os dedos contou que tinha quatro "nubabá". Seus netos.
Apontei minha barriga e mostrei
uma foto da minha filha no celular. Neste momento várias crianças já estavam ao
nosso redor e duas mulheres Mayoruna. E uma delas me disse
"Nukumaró". "Sim!"
Exclamei ao apontar a foto de minha filha. E tentei aprender a pronúncia, Maiah chegou
perto de mim, olhou nos meus olhos e disse bem devagar "
nuu-ku-maró". E eu repeti. E ela me corrigiu. E repeti de novo.
Foi quando o genro, que já havia
parado de gritar, volta a gritar novamente.
E notei que poderia ser comigo.
Ele continuava a gritar muito
alto em sua língua.
Maiah, chegou pertinho de mim e
me contou o que aconteceu com seu genro, contou sobre como era cansativo estar
ali naquela casa de apoio tanto tempo, e que todos estavam cansados.
Até que seu genro que ainda
esbravejava pediu que eu fosse embora.
Depois me contaram o quanto os
korubos são bravos... Eu sabia... Mas ainda assim fiquei à convite daquele
sorriso.
Geralmente, o genro é o
intérprete de Maiah e naquele momento eu e ela conversávamos sem a presença
dele e eu ainda anotara algumas palavras enquanto conversava com ela... Ele
pensou que eu roubaria sua língua. Acabei
indo embora sem demarcar meu território, visto que era uma
“desterritorializada”.
Por Stélia Castro para o JV
Stélia Castro é geógrafa, mestre
em patrimônio cultural, contadora de histórias e atualmente vive no Vale do
Javari, sua fonte de inspiração.

Que experiência linda!
ResponderExcluiruh uh
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