Cafeicultores do Brasil recorrem à irrigação cara para saciar a demanda global pela bebida

REUTERS/Carla Carniel


LUIS EDUARDO MAGALHÃES/GUAXUPE, Brasil (Reuters) - A seca atingiu duramente os cafeicultores no Brasil no ano passado, secando árvores e levando os preços globais a níveis recordes. Mas Rodrigo Brondani espera uma colheita abundante.

A plantação gigante de Brondani na savana do estado da Bahia, no nordeste do Brasil, parece muito diferente das fazendas e propriedades nas montanhas típicas do cultivo de café em grande parte da América Latina.

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Enquanto ele inspeciona fileiras de plantas carregadas de cerejas verdes de café, um longo braço de irrigação passa por cima nas proximidades. Ele traça um amplo círculo acima das árvores a partir de um pivô central, como o ponteiro de um relógio.

"Isso parece muito bom", disse Brondani, o gerente principal da fazenda Joha, que tem 900 hectares (2.224 acres) de campos de café irrigados - mais de 20 vezes maior do que a média das fazendas de café no Brasil.

Esse tipo de fazenda em escala industrial com acesso à irrigação está se tornando cada vez mais importante para atender à demanda global de café no Brasil – o maior produtor mundial. A maioria das fazendas no oeste da Bahia - uma nova fronteira para a cafeicultura no Brasil - agora é irrigada.

Brondani espera produzir até 80 sacas de 60 kg (132,3 libras) de café por hectare naquele lote específico da fazenda, o dobro do rendimento médio no Brasil. A preços atuais de mercado, a colheita mais recente da fazenda, encerrada em outubro, valeria cerca de US $ 17 milhões.

A Reuters conversou com mais de 20 agricultores, autoridades, agrônomos, especialistas em irrigação e executivos de empresas de café para examinar como as rápidas mudanças nos padrões de chuva devido às mudanças climáticas estão transformando a cafeicultura.

Os cafeicultores normalmente dependem das abundantes chuvas de primavera e verão do Brasil. A seca foi rara e apenas cerca de 30% dos cafezais são irrigados, de acordo com avaliações do setor.
Após a seca do ano passado, isso está mudando. Mas a irrigação pode ser cara, dependendo da distância de uma fonte de água e da profundidade do lençol freático.

Em alguns lugares no coração da tradicional região cafeeira do Brasil, no estado de Minas Gerais, o lençol freático caiu tanto que o fornecimento de água para fazendas irrigadas se tornou muito difícil.
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As árvores em Joha são plantadas em nove círculos gigantes que se chocam uns contra os outros na vasta savana tropical. O layout circular facilita a irrigação. Há água suficiente aqui para irrigar a plantação por até 20 horas por dia.

As plantas brilhantes contrastam fortemente com as árvores ressecadas vistas em muitas fazendas de café atingidas pela seca no ano passado. Quando as chuvas chegaram, era tarde demais para salvar a safra de café de 2025.

Muitas das árvores que sobreviveram em Minas Gerais ficaram enfraquecidas, por isso produzirão menos grãos este ano. A oferta brasileira de café, que responde por cerca de 35% do consumo global, deve cair novamente, segundo alguns analistas.

"As pessoas dizem que sem irrigação será muito difícil produzir café de forma lucrativa", disse Osmar Junior, que disse que sua produção em uma fazenda menor em Minas Gerais que não tem irrigação caiu para 700 sacas em 2024, de 2.000 sacas em 2020.

Espera-se que 2025 marque a quarta vez nos últimos seis anos que o consumo global de café excede a oferta. Somente nos últimos três anos, o mundo consumiu 12,5 milhões de sacas, ou 750.000 toneladas métricas, mais café do que cultivou, de acordo com a Organização Internacional do Café. O déficit equivale a cerca de 7% da oferta anual global.

Como resultado, os agricultores e torrefadores de café tiveram que reduzir o café que tinham armazenado para atender à demanda.

O déficit elevou os preços de referência do café em quase 25% já em 2025, após uma alta impressionante de 70% em 2024. O preço futuro do café arábica de alta qualidade atingiu um recorde de US$ 4,40 por libra-peso em 13 de fevereiro.



Os preços do café arábica subiram acentuadamente desde 2023. O gráfico de linhas mostra quanto os preços futuros do café aumentaram na bolsa ICE de abril de 2023 a março de 2025

Tudo isso significa uma bebida matinal mais cara. A Nespresso da Nestlé, a rede americana Starbucks e a JDE Peet, entre muitas outras, aumentaram os preços para os clientes. Dado o rali até agora este ano, os consumidores em breve terão que pagar ainda mais, disseram analistas.

IRRIGAÇÃO, MAS SEM ÁGUA

A empresa proprietária da fazenda Joha, onde Brondani trabalha, diz que as mudanças climáticas significam que o futuro do cultivo de café será em fazendas fortemente irrigadas como esta.

"Em nossa opinião, a cafeicultura mudou para sempre", disse Sergio Vieira, diretor da holding AFB&IOB, uma das maiores cafeicultoras do mundo, que detém cerca de 20.000 hectares de campos de café no Brasil.

A AFAB&IOB comprou a fazenda Joha em 2009, em uma época em que o acesso à água para irrigação era menos urgente do que agora para a indústria cafeeira do Brasil. As coisas mudaram muito desde então.

"Estamos sempre procurando fazendas para comprar, mas o aspecto número um que levamos em consideração hoje em dia é a disponibilidade de água", disse Vieira.
O oeste da Bahia fica em um dos maiores aquíferos do mundo, o Urucuia. O aquífero está a apenas 20 metros ou mais abaixo da superfície em algumas áreas.

Mas, em Minas Gerais, os lençóis freáticos caíram tanto que os agricultores em alguns lugares precisam perfurar poços de 300 metros de profundidade para atingir a água.
Perfurar tão fundo é caro e arriscado e pode resultar em fluxo de água fraco, disse o especialista em irrigação José do Espírito Santo.

Vários municípios mineiros limitaram a irrigação em 2024 por causa da seca.
"Eu tenho um sistema de irrigação, mas não havia água", disse Mario Alvarenga, que cultiva café em uma fazenda de 300 hectares em Perdoes, na região do cerrado em Minas Gerais.

A Fundação Procafé rastreia a umidade do solo nas regiões cafeeiras de Minas Gerais.

Seus dados mostraram que os solos na região de cultivo superior do sul de Minas tinham um déficit hídrico para o crescimento ideal do cafeeiro de 300 milímetros (11,81 polegadas) no final da estação seca em outubro de 2024. Isso se compara a um déficit de 110 milímetros (4,33 polegadas) em 2023 ao mesmo tempo e uma média de longo prazo de um superávit de 20 mm.

"Os déficits recentes (hídricos) que vimos são assustadores", disse o pesquisador do Procafe Rodrigo Paiva, referindo-se aos dados de 2023 e 2024.

ALTO INVESTIMENTO

Além da disponibilidade de água, um fator chave na cafeicultura é o capital. Os agricultores de todo o mundo só agora estão colhendo os benefícios dos altos preços do café, depois que uma década de baixos valores tirou muitos do mercado ou os deixou com o mínimo de dinheiro disponível.

Um sistema de irrigação por pivô central custa cerca de R$ 1,5 milhão (US$ 263.000) cada. Um sistema diferente chamado gotejamento, onde pequenos canos de água são inseridos no solo com pequenos buracos próximos às plantas, pode custar cerca de 40.000 reais (US $ 6.991) por hectare.

"É um investimento muito alto para um agricultor", disse Hugo Guimarães de Oliveira, agrônomo de café e agricultor da região de Guaxupé, em Minas Gerais, onde opera a maior cooperativa de café do mundo, a Cooxupé.

O presidente da Cooxupé, Carlos Augusto Rodrigues de Melo, disse que a irrigação fez a diferença nos últimos anos de seca. No entanto, apenas cerca de 20% da área ao redor da cooperativa possui esses sistemas, mas ele espera que esse número dobre em um período de três a cinco anos.

A cooperativa fez uma parceria com a empresa israelense de irrigação Netafim, líder global em sistemas de irrigação, para fornecer uma opção para seus agricultores associados instalarem tecnologia de gotejamento e pagarem com sacos de café ao longo do tempo.

Oliveira disse que os agricultores também podem melhorar o cuidado com as culturas, com técnicas de agricultura regenerativa para melhorar a capacidade do solo de reter a umidade, juntamente com alguma renovação do campo - substituindo árvores velhas por novas variedades.

Com isso, junto com o sistema de gotejamento de água, ele acredita que os rendimentos podem saltar para até 70 sacos por hectare, em comparação com apenas 20 sacos por hectare em uma antiga fazenda sem irrigação.

CRESCIMENTO RÁPIDO

O número de sistemas de irrigação por pivô central, como o da fazenda de Brondani, aumentou 14% no Brasil de 2022 a 2024, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).


O número de sistemas de irrigação por pivô central no estado da Bahia aumentou acentuadamente nos últimos anos, mostra o gráfico de linhas entre 1985 e 2024

Os cafeicultores não são os únicos que se mudaram para o oeste da Bahia, uma nova fronteira agrícola no Brasil, onde os agricultores estão cada vez mais cultivando grãos, algodão, café, cacau e frutas.
A Associação de Agricultores da Bahia (AIBA) disse que, considerando os recursos hídricos disponíveis, há potencial para que a área total irrigada na região cresça para 1 milhão de hectares nos próximos anos, dos atuais 300.000 hectares.

Pesquisas recentes, no entanto, levantaram preocupações sobre o que chamam de "superexploração" dos recursos hídricos na Bahia.

Um estudo publicado no ano passado pela organização sem fins lucrativos Imaterra com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) diz que o governo local relaxou a regulamentação nos últimos anos relacionada às concessões para uso da água. Também diz que as ferramentas existentes para avaliar os recursos hídricos são ineficientes.

A quantidade de água permitida para ser usada pelo setor agrícola em expansão na Bahia - cerca de 17 bilhões de litros por dia - seria suficiente para abastecer nove vezes a população de São Paulo, a maior cidade do Brasil, com 11,5 milhões de habitantes, disseram os pesquisadores.

O Serviço Geológico Brasileiro (SGB) constatou que o Urucuiá perdeu 31 km cúbicos de água de 2002 a 2021 devido principalmente ao uso de água para a agricultura. Isso representa cerca de 2,3% das reservas permanentes do aquífero, estimadas em 1.327 quilômetros cúbicos.

Os cientistas que trabalham para o SGB acreditam que o governo deve aumentar as ferramentas de monitoramento, como poços no local.
(US$ 1 = 5,7210 reais)


Reportagem de Marcelo Teixeira; Edição de Simon Webb, Daniel Flynn e Anna Driver




Por: REUTERS

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