No Salão Oval, Lula tentará frear ingerência de Trump na democracia brasileira


Delegação brasileira vai dizer que "não existem terroristas" no país e Lula pedirá fim de investigação comercial contra país



Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrar no Salão Oval da Casa Branca, nesta quinta-feira, sua missão será apenas uma: desenhar um pacto de não ingerência por parte de Donald Trump. Num ano eleitoral, a prioridade declarada da diplomacia brasileira é a de defender a democracia do país contra ataques externos.

O ICL Notícias apurou que não há a previsão de um anúncio de acordos ou o lançamento de projetos comuns. A meta é a de manter aberto o canal entre os dois principais líderes no Hemisfério Ocidental e desmontar eventuais espaços para ataques contra a soberania brasileira.

Uma das linhas de atuação do Palácio do Planalto é a de fazer uma diferenciação entre o que são temas legítimos da relação entre Brasil e EUA, e o que seria considerado como uma ingerência.
As prioridades de Lula: não existem terroristas no Brasil

Mas Lula irá levar a mensagem de que classificar grupos criminosos brasileiros como “terroristas” não se justifica e rebater as investigações comerciais contra o país.

O governo dirá com todas as letras: “não existem terroristas no Brasil”.

Durante o encontro, a delegação brasileira levará dados do combate ao crime organizado e vai mostrar a diferença entre o narcotráfico e o terrorismo. Os membros do governo vão insistir que o Brasil “não tem grupos terroristas”.

Tudo, porém, terá como pano de fundo a tentativa de construção de uma relação que dê garantias ao Brasil de sua capacidade de autonomia na região e a preservação do processo eleitoral sem a interferência do governo dos EUA.

A esperança é de que, com a visita, Lula consiga evitar que Trump se envolva diretamente numa tentativa deliberada de desestabilização do Brasil. O risco continua sendo alto mesmo com o republicano neutralizado. Para a diplomacia brasileira, essa ingerência pode ocorrer por meio das big techs, de grupos ultraconservadores da sociedade civil americana e por ações encobertas por parte de alas mais radicais do trumpismo.
Temas sobre a mesa

Do lado do Brasil, pelo menos dois temas estarão sobre a mesa: comércio e crime organizado.

Lula quer ocupar o espaço do debate e se apresentar como o interlocutor de Trump para lidar com as prioridades políticas da Casa Branca. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil negocia um arcabouço político que impeça atos que possam ser considerados como intromissões indevidas dos EUA na agenda política doméstica.

No tema relacionado ao combate ao crime organizado, os EUA enviaram uma proposta concreta de cooperação com o Brasil. Mas vinha sendo protelada pelo Palácio do Planalto. Inicialmente, a ideia de que grupos criminosos como o PCC e o Comando Vermelho fossem declarados como entidades terroristas foi apresentada pelos EUA. O Itamaraty, a Polícia Federal e o Ministério da Justiça foram contra.

Lula vai insistir que não existem justificativas nem práticas e nem políticas para que esses grupos brasileiros sejam classificados como “terroristas”.

Ainda que essa declaração possa ocorrer por parte dos EUA, diplomatas indicam que a viagem de Lula poderia “constranger” Trump a seguir nesse caminho e frear o ímpeto bolsonarista.

Ele, porém, não quer deixar que o tema da segurança – considerado como prioridade para muitos brasileiros nas eleições de 2026 – fique nas mãos dos bolsonaristas. Por isso, o presidente vai levar dados concretos de como a cooperação já funciona e que pode ser ampliada.

Uma vez mais, Lula quer apresentar isso como um sinal de que o Brasil se apresenta como parceiro. Mas nem como submisso aos interesses de Trump ou como adversário.

O Brasil buscava ainda incluir na agenda o combate contra a lavagem de dinheiro e contra o tráfico de armas.

Comércio

No comércio, Lula irá mostrar que existe uma assimetria profunda no fluxo de bens entre os dois países, com amplas vantagens para os EUA. A viagem, assim, tem um caráter preventivo.

Sua ideia é a de mostrar dados e fatos para conter duas investigações que existem contra o país e que, se concluídas em julho, podem resultar na volta da imposição de tarifas contra produtos brasileiros.

Mas a ausência de uma ampla delegação do setor privado aponta, segundo observadores, que não haveria ainda espaço para garantir um novo acordo.

Terras raras: acordo ainda não maduro

Na pauta de terras raras, o governo dos EUA deve pedir uma maior aproximação com o Brasil. Lula, segundo a reportagem apurou, está pronto para lidar com o tema. Mas as negociações não estariam maduras ainda para se falar em um acordo.

Washington já enviou duas propostas diferentes. A primeira delas, revelada com exclusividade pelo ICL Notícias, previa um acerto para o Brasil e toda a região que permitisse que os norte-americanos ficassem com uma reserva de mercado para os minérios críticos da região. Argentina, Bolívia e outros toparam. O Brasil se recusou a assinar.

Um pacto bilateral foi então proposto ao Brasil. Mas, de acordo com a apuração da reportagem, tratava apenas de uma cooperação ampla, sem qualquer tipo de engajamento por parte dos EUA no desenvolvimento de um processo de maior valor agregado em território brasileiro.

Situação de Venezuela, Cuba e Irã

A situações de Venezuela, Irã e Cuba também podem ser tratada. Mas o governo brasileiro já indicou que essa não será sua prioridade e que a conversa terá seus limites. A meta é a de focar em assuntos bilaterais.

Ainda que a estabilização de Caracas seja um ponto de interesse de Lula e Trump, a forma pela qual a retirada de Nicolas Maduro foi realizada foi vista pelo Planalto como um sinal negativo sobre como os EUA estão dispostos a agir na região.

Sobre a crise em Havana, não há uma perspectiva de uma convergência na posição dos dois líderes. Mas, assim como ocorreu em 2023 quando Lula esteve com Joe Biden, o Brasil acredita que é seu dever apresentar sua posição sobre a situação.

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Como será a reunião

O formato do encontro também chama a atenção de observadores. Se em algum momento existiu a perspectiva de que o encontro fosse ser transformado em um ato de aproximação concreta entre os dois líderes, a agenda e o comportamento da Casa Branca revelam que a viagem está sendo tratada de uma forma mais pragmática.

Washington descreve o encontro como uma “reunião de trabalho”, o que dispensa atos de homenagem ao brasileiro ou a viagem com equipes e delegações completas de ambas as partes.

A reunião no Salão Oval ocorrerá pela manhã de quinta-feira, seguida por um almoço.

Os dois líderes devem falar com a imprensa ainda dentro do escritório de Trump, como é tradicionalmente feito. Mas não há uma coletiva de imprensa conjunta depois do encontro sendo planejada.

Lula, ainda assim, decidiu aceitar o formato oferecido. Sua visão é de que, depois de um encontro com George W. Bush em 2003 e marcado por suspense por conta da distância ideológica entre os dois líderes, agora será a vez de traçar uma linha no chão sobre como o Brasil espera ser tratado por Donald Trump até o final do ano.




Por: ICL Noticias

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