A extrema direita brasileira entrou em pânico esta semana por causa de um tiroteio na porta de um hotel em Santa Cruz de la Sierra, a 2.500 quilômetros de Brasília.
Na noite de segunda-feira, dois homens usando mochilas térmicas de aplicativo de entrega atiraram três vezes em uma advogada boliviana de 33 anos e fugiram. Ela sobreviveu porque fingiu de morta, nas palavras dela. Na madrugada seguinte, a polícia prendeu no aeroporto de Viru Viru um argentino que tentava embarcar para Buenos Aires, apontado pelo Ministério Público como o suposto autor intelectual do ataque.
O argentino se chama Fernando Cerimedo, e o nome dele deveria significar alguma coisa para você.
Quem é o gringo
Cerimedo se vende no mercado como “consultor eleitoral”. Trabalhou na campanha de Javier Milei na Argentina, é dono do La Derecha Diario, um site de notícias que afunila o discurso da extrema-direita na América Latina, e, até esta semana, era assessor pessoal do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz — o governo que derrotou o campo de Evo Morales nas eleições do ano passado.
No Brasil, ele foi outra coisa: foi…
…“o especialista internacional”
Em 4 de novembro de 2022, dias depois do segundo turno, Cerimedo fez uma live chamada “Brazil Was Stolen”, vista por mais de 400 mil pessoas, apresentando um documento apócrifo segundo o qual as urnas fabricadas antes de 2020 se comportavam de forma “estatisticamente impossível” e favoreciam Lula. A frase, que el português significa “O Brasil foi Roubado”, explodiu nas buscas do Google e inundou o whatsapp do país com a narrativa de que Bolsonaro, na verdade deveria ter vencido as eleições, o que levaria ao dia de fúria do 8 de janeiro.
Fonte: Google Trends
Uma mentira que o TSE desmontou, mas que não parou por aí.
A fraude “documentada”
Semanas depois, a mesma tese levantada por Cerimedo, apareceu de forma idêntica na petição que o PL, partido do então presidente Jair Bolsonaro, levou ao tribunal para tentar anular votos. Segundo a investigação da Polícia Federal, a petição do PL pedia a anulação de 59,18% dos votos do segundo turno, alegando falha nos modelos de urna anteriores a 2020 (UE2009, UE2010, UE2011, UE2013, UE2015): um suposto problema na identificação individual dos logs das urnas, que exibiam um número genérico (”67305985”) em vez de identificador único, o que supostamente impediria vincular o equipamento físico ao registro de votação.
Era exatamente o Fernando Cerimedo havia divulgado em sua live alegando manipulação dos resultados. Segundo o relatório da PF, o material dele “embasou a representação do Partido Liberal (PL) para anular os votos computados nas referidas urnas” — ou seja, a mesma base técnica/narrativa que ele espalhou falsamente na internet virou o fundamento oficial do pedido do PL, formalizado via um laudo de um tal Instituto Voto Legal (IVL). A PF apontou, inclusive, que usar um consultor estrangeiro fazia parte de uma estratégia pra tentar escapar da jurisdição brasileira.
O TSE, claro, rejeitou o pedido, provando que mesmo as urnas mais antigas tinham identificação física e lógica individual, e depois multou o PL em R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé.
Oi, sumido
Cerimedo desapareceu por alguns anos depois que a PF, o STF e uma CPI foram atrás dele. A conexão com os Bolsonaro, no entanto, nunca se desfez. Em julho deste ano, dias depois que Flavio Bolsonaro repetiu mentiras do pai sobre fraude nas urnas a representantes de governos estrangeiros, também assim como o pai, seu irmão Eduardo Bolsonaro apareceu do nada em seu canal no Youtube em uma live com Cerimedo. Os dois voltaram a levantar a história da fraude nas urnas, repetindo o roteiro de quatro anos atrás, agora no contexto de 2026. Já está claro: Flávio, se perder, seguirá os passos do pai e negará o resultado.
Petróleo, cocaína, ouro e informantes da CIA
O que vem a seguir são acusações Nadia Beller, a vítima que acabou de levar três tiros. É material que a Justiça boliviana vai ter que investigar.
Nadia Beller está internada com custódia policial e vem dando entrevistas em série porque, segundo ela, teme pela própria vida. “É muito fácil entrar num hospital”, disse. A fala pública é a proteção que encontrou.
O que ela conta:
- 🤰 Que estava grávida de quatro semanas de Cerimedo.
- 🇧🇴 Que “na Bolívia quem governa não é Rodrigo Paz, é Fernando Cerimedo”.
- ⛽🥇 Que testemunhou negócios envolvendo o presidente, a mulher dele e a família dela — gasolina, diesel, ouro.
- ✈️🚨 Que soube da liberação de radares para que aviõezinhos do narcotráfico pudessem pousar no oriente boliviano.
- 📱☎️ Que tinha provas das conversas dele com operadores do tráfico.
- 🕵️ Que Cerimedo se dizia agente da CIA, e que descrevia assim também seu parceiro Brad Parscale (logo falaremos dele) e Natalia Basil, atual mulher do argentino.
- 🏨📩 Que foi atraída ao hotel por uma mensagem anônima prometendo documentos contra Evo Morales, e que Cerimedo teria garantido a ela que haveria policiais à paisana no local para protegê-la.
- 📂 E, por fim: “eu tenho prova de tudo isso”.
Ela publicou no Facebook fotos de maços de dinheiro e de uma condecoração em que Cerimedo aparece como “assessor pessoal de Sua Excelência”, e pediu que o caso não corra em segredo: o governo, disse ela, é o principal interessado em calá-la.
A defesa nega tudo. Uma das advogadas dele, Margarita Arce, chamou o caso de “show político” e sugeriu que Beller teria orquestrado um “autoatentado” para manchar a imagem de Rodrigo Paz. Cerimedo se recusou a depor.
Por que isso é assunto nosso, agora
Estamos em ano eleitoral e o bolsonarismo acaba de perder uma peça grande do tabuleiro.
Não é só o constrangimento de ter o falso oráculo das urnas preso como suposto mandante de uma tentativa de assassinato. É que a defesa dele — e a defesa de todos eles — é sempre a mesma: “eu só estava fazendo perguntas técnicas”.
Fica muito mais difícil sustentar isso quando o técnico em questão é acusado de despachar dois homens de moto para matar a ex-companheira grávida, que o acusa, entre outras coisas, de operar pelos interesses da agência de espionagem dos EUA na América Latina. Um dos nomes citados pela vítima é o de Brad Parscale.
Quem é o (outro) gringo

Brad Parscale, segundo a denunciante, atua como “agente” da CIA na América Latina. Pasrcale é o estrategista digital americano que trabalha com Trump desde 2011 e comandou as campanhas dele em 2016 e 2020. Foi o “guru digital” por trás da máquina de dados e redes sociais que ajudou a eleger Trump duas vezes.
Hoje Parscale lidera uma operação de influência contratada pelo governo Netanyahu nos EUA. Seu foco em usar IA e dados para atingir com mensagens positivas eleitores americanos e tentar reduzir o desgaste da imagem de Israel entre republicanos e a base MAGA, trabalho que ganhou repercussão em reportagens de Axios, Time e The Intercept ao longo de 2026, incluindo questionamentos sobre para onde foi o dinheiro do contrato (parte teria sido direcionada a empresas de aliados antigos dele, todos operadores da extrema-direita).
Na linha das estranhas coincidências…
…no lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em julho, Netanyahu mandou um vídeo de apoio exibido na convenção, chamando Flávio de “meu amigo” e “grande campeão”. Milei, que teve em Cerimedo o cérebro de sua campanha vitoriosa na Argentina, também apareceu com Flávio, este em carne e osso.

Enquanto o entorno de Netanyahu paga um ex-operador de Trump para blindar a imagem de Israel dentro do universo republicano/MAGA nos EUA, o próprio Netanyahu aparece pessoalmente endossando a campanha do bolsonarismo no Brasil.
Cerimedo, Parscale, Bolsonaros. É a mesma rede internacional de alianças entre a direita israelense, o trumpismo e o bolsonarismo aparecendo por todos os lados. Teremos longos anos em repeteco pela frente.
Por: Leandro Demori






Comentários
Postar um comentário