Oposição vai controlar Câmara dos Deputados e Senado; Governo Lula vê chance de "nova relação" com Trump

Dois anos depois de chegar ao poder nos EUA e tentar redesenhar a democracia americana e a ordem mundial, Donald Trump sai humilhado das urnas. Nesta terça-feira, a eleição de meio de mandato deu aos democratas a maioria dos assentos – e portanto, o controle – tanto da Câmara dos Deputados como do Senado, numa derrota retumbante para o republicano.
A dimensão da vitória dos Democratas não era esperada nem mesmo pela oposição. Em declarações à Fox News, Trump admitiu que a guerra no Irã e a alta nos preços dos combustíveis contribuíram para a derrota. Ele indicou que irá aceitar os resultados da eleição.
Ainda que a contagem possa levar dias para ser concluída, os democratas conquistaram a maioria das vagas no Senado em estados tradicionalmente republicanos. Nem os US$ 500 milhões colocados por Elon Musk para apoiar os aliados de Trump foram suficientes para deter a ira dos eleitores contra os republicanos.
No Kansas, a última vez que os democratas tinham eleito um senador foi há quase cem anos.
O democrata James Talarico venceu uma disputa no Texas, na maior derrota para os Republicanos nas eleições deste ano. Trata-se ainda da primeira vez que um democrata conquista uma cadeira no Senado dos EUA pelo Texas desde 1988. “Acabamos de provar que todo o dinheiro do mundo não é páreo para o povo do Texas”, disse ele, numa referência aos milhões que Elon Musk despejou para eleger os republicanos pelo país.
O mesmo tom foi usado em outros estados. Josh Turek, senador eleito pelo Partido Democrata em Iowa, classificou sua vitória inesperada para muitos como prova do poder da maioria sobre a riqueza concentrada de poucos. “Provamos que o impossível era possível. Superamos os bilionários na votação”, disse.
Muçulmano, indígena, gay e latinos
Mas não foi apenas no controle do Congresso que a população deu uma resposta ao governo Trump.
Em Michigan, o democrata Abdul El-Sayed foi eleito senador. Ele será o primeiro muçulmano a ocupar o cargo.
No Novo México, a democrata Deb Haaland foi eleita governadora. Ela será a primeira mulher indígena a alcançar o posto no país.
No Texas, a democrata Gina Hinojosa será a primeira governadora hispânica.
Em Winsconsin, o democrata David Crowly foi eleito o primeiro governador negro da história do estado.
Em New Hampshire, o democrata Chris Pappas foi o eleito para o senado. Ele será o primeiro homossexual declarado a assumir o cargo.
Keisha Lance Bottoms será a primeira governadora negra da Geórgia e a primeira governadora negra na história dos EUA.
Latinos punem Trump
Um dos aspectos mais destacados da eleição foi a rejeição dos latinos em relação a Trump, em grande parte por conta de sua política de deportação. Segundo o New York Times, os condados com maioria de população hispânica registraram uma queda de mais de 22 pontos percentuais em oposição aos candidatos republicanos ao Senado, em comparação com a eleição presidencial de 2024.
“No Kansas e no Texas, as oscilações foram drásticas. Condados com maioria de população hispânica no Kansas deslocaram-se 45 pontos percentuais em direção à esquerda, enquanto, no Texas, a mudança foi de quase 36 pontos percentuais”, indicou a previsão do jornal.
Impeachment, Flávio Bolsonaro e tarifas
Agora, com o controle completo do Congresso, os democratas poderão frear os planos de Trump para os próximos dois anos — e até abrir processo de impeachment.
Não se descarta que, para o caso do Brasil, os democratas também abram investigações sobre como Flávio Bolsonaro foi autorizado a entrar no país ou como tarifas foram impostas sobre os bens brasileiros.
“Uau! Uau! Agora, contra todas as expectativas, nós, democratas, conquistamos o Senado”, declarou o líder da minoria, Chuck Schumer, em Washington, D.C. “Temos cinco palavras para o povo americano: o alívio está a caminho.” Eles ainda venceram em Maine, Carolina do Sul e Iowa.
Outro impacto da vitória será a capacidade dos democratas de barrar nomeações feitas por Trump para seu gabinete ou para o judiciário federal — incluindo a Suprema Corte.
Até o começo da manhã desta quarta-feira, os democratas somavam 53 cadeiras no Senado, contra 41 dos republicanos. Mesmo na Flórida, onde os republicanos venceram, a candidata Ashley Moody reconquistou seu mandato por uma pequena margem. Para o partido Republicano, trata-se de um recado duro das urnas.
Brasil vê chance de nova relação com Trump
Para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a aposta é que a vitória dos democratas possa reequilibrar a relação de força de Donald Trump em seu avanço na América Latina e na ingerência no Brasil.
Desde 2025, o Brasil vem sofrendo medidas de sanções, tarifas e mesmo a fuga de Flávio Bolsonaro, com a ajuda dos EUA. Ao longo dos meses, porém, tanto o governo brasileiro como atores independentes costuraram uma relação de proximidade com senadores e deputados democratas, tentando criar uma aliança e expor as violações por parte de Trump.
O objetivo era ainda o de permitir que, a partir de 2027, Lula possa ter mais espaço para manter sua política externa independente, tanto na relação com potências como na construção de canais pragmáticos com os demais governos na América Latina.
Foram pelo menos dez manifestações e cartas por parte dos democratas, cobrando a Casa Branca por atitudes perturbadoras no Brasil, inclusive durante o processo eleitoral do país. Nos bastidores, deputados progressistas no país e observadores viajaram até Washington para apresentar a situação brasileira a congressistas americanos.
Apenas na última semana, por exemplo, quase 30 deputados democratas enviaram uma carta para o secretário de Estado Marco Rubio cobrando explicações sobre qual teria sido o papel do governo Trump na fuga de Flávio Bolsonaro.
Até agora, porém, os democratas eram minoria no Congresso americano. Isso significava que, mesmo fazendo pressão, não tinham votos suficientes para estabelecer comissões de inquérito ou transformar suas queixas em ações concretas contra Trump.
Uma situação diferente pode ser criada a partir de agora. Não se descarta, por exemplo, que a fuga de Flávio Bolsonaro se transforme em uma comissão de inquérito.
Outra expectativa do governo brasileiro é de que uma maioria democrata represente também um freio às medidas comerciais de Trump pelo mundo. Pelas regras nos EUA, a política comercial é prerrogativa do Congresso.
No governo Lula, a expectativa é de que a eleição dos democratas se transforme em uma mudança na relação. Há uma coincidência de agendas. O Brasil busca interromper o avanço americano na região, enquanto os democratas querem usar as propostas de diplomacia de Trump como um sinal do caminho perigoso que sua política externa vem tomando.
Com uma nova correlação de forças, Lula espera abrir uma relação pragmática com a Casa Branca. A avaliação em Brasília é de que os EUA são um parceiro “inescapável” e que o melhor caminho que pode ser tomado pela diplomacia nacional é a busca por acertos em áreas de interesse comum.
Por:ICL Noticias
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